Qual a sua história mais marcante na música?


Gosto muito de contar essa história porque ela foi muito sem pretensão, sabe. Talvez, naquele momento, sem importância de fazer sentido mas que fez todo sentido pra mim no decorrer da vida.

Eu era muito pequena, meus tios músicos (um baixista e um baterista) e minha avó era pianista. Me lembro de acompanhar os ensaios na garagem, com olhar admirado e atento em tudo que eles faziam, em todos os instrumentos. Era Rock'n Roll da melhor qualidade, com a banda "Testa de Ferro" no bairro de São Cristóvão, Rio de Janeiro.

Era uma pausa para beber uma água, lá ia eu correndo para os instrumentos.

Eu já possuía um teclado antigo, com lateral de madeira e um violão azul, que me pai pegou em um negócio que fez com o carro dele mas aqueles instrumentos da banda me transbordavam os olhos.

Meu tio Tuninho (baixista) guardava as coisas na casa dele e ali naquele quartinho dele, muita coisa aconteceu. Era ali que eu tocava/brincava escondida com umas guitarras, eu tocava até não aguentar mais...várias vezes, eu chegava em casa, de mansinho, e colocava a ponta dos meus dedos no gelo do freezer, porque estavam doendo.

O que eu tocava? Era engraçado. Eu não sabia o que ele estava me ensinando. Uma música ele cantarolava e me ensinava a mudança dos acordes, outros eram mais ou menos assim: "Tatty, faz assim. Depois assim....isso. Falta só mais um pedacinho, faz esse final assim".

Depois, quando meu padrinho ou qualquer outra pessoa chegava, ele fazia "a base" e me sinalizava a hora de começar a tocar aquele pedaço de solo. O que eu ouvia do pessoal?

"Caramba, ela ta tocando Mr. Crowley"...e era uns trechos simplificados de músicas que ele me ensinava e que eu nem sabia o que era, mas fazia como tinha aprendido.

Mas, lembra da música que eu falei dos acordes? Ela era única, era sempre essa e ele cantarolou tanto essa música, que eu memorizei sem saber.

Foi passando o tempo, novas músicas, novos instrumentos até que tive minha primeira banda na adolescência, minha primeira experiência tocando com outras pessoas que não fossem meus tios.

Primeira banda e primeira frustração, aquilo não foi como eu imaginava. Eu tocava teclado, eu não entendia ao certo mas aquilo não atendeu as minhas expectativas.

Fiquei um tempo sem tocar meus instrumentos...até que peguei o velho violão, sozinha no quarto. Peguei, sentei na cama, pensei no que ia tocar. Fiz um Ré Maior e me veio imediatamente a lembrança da tal música, lá da minha infância...comecei a tocar e para minha surpresa, lembrei da letra.

Foi a única vez que eu consegui tocar e cantar essa música. A música era "Nos Bailes da Vida", composição de Fernando Brant e Milton Nascimento. Eu me emociono bastante só em falar dessa canção pois o que o meu tio talvez não sabia, era que a letra dessa música se tornaria a minha maior lição artística da vida, ela deu sentido a pessoa que me tornei musicalmente, ela me ensinou a ser simples, a ser humilde, a fazer e a me entregar na minha arte "independente se quem pagou quis ouvir", é sobre a minha entrega no palco.

Milton Nascimento se tornou, pra mim uma grande referência. Foi a primeira música que toquei no violão "Nos bailes da vida", a primeira música que gravei na vida foi "Quem sabe isso quer dizer amor", que eu ouvia na voz dele em alguma novela que passava e, agora nessa minha nova fase musical como front, é do Milton Nascimento a música de abertura do meu show solo.

Deixo um agradecimento ao meu grande ídolo Milton Nascimento, por toda sua obra na Música Popular Brasileira e, um agradecimento muito especial ao meu Tio Tuninho. Por toda paciência, todas as horas de dedicação pra me ensinar cada detalhe, por me mostrar um universo de músicas diferentes e por ser esse cara tão especial na minha vida.

Ele e minha avó são os meus mentores musicais e meus amores também.

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